Não há cáries no país dos sem-dentes

 

Produzido originalmente para o jornal Tribuna de Minas
O Brasil registrou, em junho, pela primeira vez em 11 anos, uma deflação. O Índice de Preços do Consumidor Amplo (IPCA) acumulou, no mês, queda de 0,23%, chegando a apenas 1,18% no ano (a meta do governo, para os doze meses de 2017, é de 4,5%, com teto de 6% e piso de 3%). O resultado foi puxado, principalmente, pelas quedas na energia elétrica residencial (-5,52%) e na alimentação doméstica (-0,93%).
Vivendo uma recessão nos últimos dois anos, a queda na demanda agregada vem colaborando para queda nos preços brasileiros. Se analisarmos o PIB pela ótica dos gastos deste ano, nos deparamos, na comparação trimestre/mesmo trimestre do ano anterior, com queda no Consumo das Famílias (-1,9%), nos Gastos do Governo (-1,3%) e nos Investimentos das firmas (-3,7%). Somada a uma boa safra alimentícia, a escassez de demanda inibe alguma pressão inflacionária e demonstra certa incapacidade de recuperação da economia brasileira.
A notória dificuldade enfrentada para reaquecer o mercado reproduz o não equilíbrio entre demanda e capacidade de oferta, que colabora também para os quase 13,5 milhões de desempregados, que fizeram a taxa de desocupação atingir 13% em junho. Sem emprego, as famílias não consomem, e sem requisição dos agentes, não há elevação de produção. Mantido o desequilíbrio de mercado, retornamos a não utilização de toda a força de trabalho, em um ciclo que parece sem fim.
Dado contexto de marasmo econômico enfrentado pelo Brasil, comemorar a baixa inflação dos últimos meses é como agradecer a ausência de cáries em alguém que não têm dentes. São estes fatores que permitiram que, na última reunião, o Copom definisse a taxa básica de juros para 9,25% a.a. Foi a primeira vez desde 2013 que a Selic atingiu valores de 1 dígito. O boletim Focus do Banco Central do dia 28 de julho traz previsão do mercado para o IPCA no fim do ano em 3,4%, mais de 1 ponto percentual atrás do centro da meta do Governo Central, o que enfatiza a falta de perspectiva de um aquecimento da economia brasileira e explica as previsões de que a Selic feche o ano na casa dos 8%.
Além da baixa atividade econômica, o resultado fiscal do governo brasileiro para o primeiro semestre não foi dos melhores. Somada à necessidade de aumento de receita, a inexistência de pressão inflacionária permitiu a política de elevação dos impostos sobre combustíveis. A expectativa do governo era conseguir uma arrecadação de aproximadamente R$ 10 bi com tal medida, na tentativa de manter o rombo nas contas públicas na casa de R$ 139 bi para o ano de 2017. No acumulado dos primeiros seis meses do ano, pode-se perceber um resultado no mínimo alarmante, déficit primário da ordem de R$ 56 bi segundo dados da STN (Secretária do Tesouro Nacional). A título de comparação, o pior resultado da série histórica iniciada em 1997 para este período havia sido no ano de 2016, quando o déficit acumulado foi de R$ 37 bi. Portanto, apesar de, para Temer, “não haver crise econômica no Brasil”, a situação segue longe do ideal.

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