Ainda que pouco, crescemos de novo. E agora?


Rompemos o ciclo de quedas Após 12 trimestres seguidos de queda na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, o Brasil voltou a ver uma elevação do Produto Interno Bruto no 2º trimestre de 2017. Apesar da comemoração do governo ao divulgar os dados relativos à janeiro, fevereiro e março deste ano, a alta havia sido apenas em relação aos meses imediatamente anteriores. Desta vez, além da alta de 0,2% em relação ao primeiro período de 2017, houve também crescimento de 0,3% na comparação com 2016.

Como?

  • O crescimento de 1% observado no primeiro trimestre, quando contraposto com o fim de 2016, passou em grande parte pelo ótimo desempenho do setor agropecuário (alta de 11,2%), influenciado pela safra de performance acima dos padrões. Desta vez, apesar da estagnação agropecuária e da baixa da indústria (-0,5%), o maior setor da economia, responsável pela maior parte dos empregos, o de serviços, foi quem teve o melhor resultado: variação positiva de 0,6%.

  • Pela ótica das despesas [C+G+I+(E-X)], o grande impulsionador do “bom” resultado do PIB foi o Consumo das Famílias: na comparação trimestre/trimestre anterior, elevação de 1,4%, e contra o trimestre igual do ano anterior, mais 0,7%. Explica-se tal fato pelo início da recuperação dos empregos (eram 14,17 milhões de desocupados, ou 13.7%da população na força de trabalho, no início do ano, contra 13,46 milhões, ou 13%, agora), aumento da massa salarial (elevação de 0,5% na massa de rendimentos habitualmente recebidos pelas famílias), redução nos juros (a meta para Taxa Selic, que iniciou o ano em 13% a.a., atingiu 9,25% a.a. na última reunião do Copom, e deve continuar caindo até o fim de 2017) e desaceleração da inflação (o IPCA, em junho, chegou a registrar deflação de 0,23%, e acumula apenas 2,71% em 12 meses, longe do centro da meta do governo, de 4,5%). É natural que, trabalhando, com mais renda e preços em baixa, haja aumento do consumo pela população.

  • Definitivamente ainda não há recuperação nos investimentos. Na comparação trimestre/trimestre anterior, queda de 0,7% na Formação Bruta de Capital Fixo. Em paralelo com o mesmo trimestre de 2016, diminuição ainda maior: 6,5% a menos. Ainda há enorme capacidade ociosa nas indústrias, traduzidas no baixo desempenho do setor, o que dificulta novos investimentos. A construção civil, destaque em tempos de Copa do Mundo, Olímpiadas e crédito fácil para as famílias, também segue em ritmo lento.

  • A terrível situação fiscal vivenciada pelo Governo Federal (nova meta fiscal tem déficit de R$ 159 bilhões para 2017 e 2018) vem diminuindo o espaço fiscal continuamente. No segundo trimestre deste ano houve decréscimo de 2,4% no consumo governamental, quando comparado com o mesmo trimestre do ano passado. Em relação ao primeiro trimestre de 2017, queda de 0,9%.

O caminho é esse? Evidentemente, após um período de números péssimos e nem um pouco animadores, observar resultados positivos para a economia nos traz alento. Entretanto, a recuperação é lenta e ainda frágil. Para o IBGE, por exemplo, os 0,2% de aumento no PIB em comparação com o primeiro trimestre deste ano, ou 0,3% em relação ao mesmo período de 2016, são a mesma coisa que nos mantermos inertes. A análise simplista do aumento do PIB esconde a péssima taxa de investimento ainda enfrentada pelo país, que, mesmo baixando os juros e tendo uma melhora no consumo e no emprego, ainda enfrenta uma enorme crise política e institucional que torna nebulosa as expectativas dos empresários e inibe o ato de investir. O não andamento de reformas importantes, como a previdenciária, reduz o efeito de políticas austeras como a do teto de gastos, e faz com que o governo perca ainda mais a capacidade de impulso fiscal. Além disso, o país enfrenta há décadas problemas em sua produtividade do trabalho, que, segundo estudo do banco Credit Suisse, está estagnada desde 1981.

O desemprego, por mais que venha diminuindo, continua atingindo mais de 13 milhões de pessoas, e irá demorar a atingir patamares “aceitáveis”. Mesmo que atinjamos níveis mais baixos, a improdutividade torna inevitável a alocação de boa parte da mão-de- obra em trabalhos de baixa qualidade (como já vem acontecendo no momento), e, consequentemente, menores salários, tornando rúptil e volátil a perspectiva de crescimento baseado no consumo das famílias. Logo, ainda que os números estejam evoluindo, ainda é muito cedo para se falar em retomada econômica. Sem mudanças estruturais ainda mais firmes, no âmbito político e produtivo, ainda demoraremos a alcançar até mesmo os “voos de galinha” de outrora.


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