A desaceleração inflacionária e suas implicações

October 14, 2017

Abaixo do piso
     Após anos como a grande vilã nacional, a inflação, desde o Plano Real (1994), atingiu patamares bem menores que os de outrora, ficando abaixo dos dois dígitos durante quase todo o período, quase sempre acumulando menos que 10% ao fim de cada ano. Entretanto, voltou a assustar em 2015, atingindo 10,67% no ano, quando a meta era de 4,5% a.a.. Em 2016, voltou ao padrão das últimas décadas, terminando o ano em 6,29% a.a.. Já o ano de 2017 deve revelar um fenômeno até então desconhecido para o país: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula apenas 1,78% nos primeiros 9 meses do ano, ou 2,54% nos últimos 12 meses, bastante distante dos 3% a.a. do piso da meta estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (COPOM).


Os dados
- Seria a primeira vez desde 1999, quando foi estabelecido o Regime de Metas para inflação, que o resultado registrado estaria abaixo do piso da meta. Durante a maior parte do tempo (10 dos 18 períodos observados desde então), o índice no fim do período obteve variação maior que o centro da meta e abaixo do teto. Dos 8 restantes, 4 ficaram acima do limite superior permitido, 3 alcançaram exatamente a meta e apenas 1 ficou abaixo do centro da meta.

 
- O IPCA é medido a partir de 9 subgrupos, que, com seus pesos somados, representam 100% do índice cheio. Os subgrupos e seus pesos são: Alimentação e Bebidas, 24,97%; Habitação, 15,60%; Transportes, 17,98%; Saúde e Cuidados Pessoais, 12,01%; Despesas Pessoais, 10,91%; Vestuário, 5,92%; Educação, 4,88%; Artigos de Residência, 4,06; e Comunicação, 3,66%.


- O subgrupo de Alimentação e Bebidas é o maior responsável pela baixa do IPCA. Acumula, nesses 12 meses, deflação de 2,14%. Dos outros subgrupos, apenas o de Artigos de Residência também acumula baixa: -1,27%. Nos restantes, alta de 4,10% na Habitação; 2,18% no Vestuário; 3,99% nos Transportes; 6,77% na Saúde e Cuidados Pessoais; 4,73% nas Despesas Pessoais; 7% na Educação; e 1,67% na Comunicação. Por ter o maior peso para o índice final, o subgrupo de Alimentações e Bebidas dita o sinal de variação encontrado no IPCA.

 

- A ótima safra da agricultura brasileira nos primeiros trimestres do ano contribuiu para baixa no preço dos alimentos. Com crescimento do setor em 15,2% no 1º trimestre deste ano, e 14,9% no 2º, na comparação contra o mesmo trimestre de 2016, a alta na oferta de produtos tirou boa parte da pressão nos preços cobrados, fazendo com que houvesse queda de 29,4% no valor dos Cereais, Leguminosas e Oleaginosas, 21,18% nos Tubérculos, Raízes e Legumes, 8,23% no Açúcar e seus Derivados, e 10,96% nas Frutas.


- No fim de 2014, eram 6,45 milhões de desempregados (6,5% da população na força de trabalho) e a inflação acumulada foi de 6,41% no ano. Em 2015, a inflação dispara e atinge 10,67% a.a., com 9,07 milhões de pessoas desocupadas (9%), contrariando inicialmente a Curva de Philips, a qual postula uma relação inversa entre inflação e desemprego, ou seja, o desemprego deve cair quando a aceleração dos preços se materializa. Com um pouco de atraso, em 2016, o desemprego avança e atinge 12,34 milhões de pessoas (12%), e a alta segue até abril deste ano, quando o número chega a 14,04 milhões (13,6%). Com este alto custo, a relação proposta pela curva de Philips mostra o resultado esperado: a inflação despenca e atinge os patamares atuais, fortalecendo os indícios de ficar em patamar abaixo do piso da meta do Governo.


- O boletim Focus do Banco Central prevê inflação de 2,98% para 2017, abaixo do piso de 3% estabelecido pelo Governo. Entre as instituições que mais acertam as projeções, o Top 5, a mediana das estimativas para o IPCA é ainda mais baixa: 2,92% a.a.


Afinal, o que significa?

     Os dados demonstram a lentidão na retomada econômica brasileira. A demanda agregada continua abaixo do que se esperava para o ano, mesmo com a aceleração do crescimento no 2º trimestre tendo sido acima do que se previa. A boa safra agrícola do ano colabora para aumento da oferta de alimentos e retira a pressão dos preços do principal grupo que compõe o IPCA. O alto número de desempregados reflete o altíssimo custo que está sendo pago pela população para que a inflação permaneça em baixa.
     É válido ressaltar, portanto, que, mesmo que colabore para o afrouxamento da política monetária e iniba os efeitos do colapso fiscal vivido pelo país, a inflação não se encontra em patamares comuns, e traduz situações preocupantes da economia nacional. O custo, principalmente quanto ao emprego, há de ser considerado e será melhor discutido na próxima semana.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Recentes

November 12, 2019

Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga no Facebook
  • Facebook CMC