Bolsa cara ou barata?

     O que dizer a respeito da expressiva valorização que o Ibovespa – índice que mede a variação das 60 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de São Paulo – vem apresentando nos últimos pregões?  No último dia 13 de outubro o índice bateu o recorde histórico, chegando a 76.989 pontos, deixando para trás a marca de 73.516 pontos alcançados no dia 20 de maio de 2008, poucos meses antes de eclodir a maior crise financeira do século.

   A valorização se deve em grande parte a notícias pontuais. Depois de sobreviver à primeira denúncia na Câmara, apresentada ainda pelo ex-procurador Geral da República, Rodrigo Janot, Michel Temer ganhou força para terminar seu mandato na visão de alguns investidores, levando alguns a acreditar até em uma aprovação da Reforma da Previdência ainda este ano. Outra notícia que fez o mercado se valorizar foi o recente anúncio de privatizações no setor elétrico, tendo como cereja do bolo a Eletrobrás, que chegou a ganhar quase 10 bilhões de reais em valor de mercado nas vésperas do anúncio feito pelo governo no último dia 22 de agosto.

  Como pode ser percebido, as notícias dizem respeito ao cenário político e macroeconômico, não especificamente aos fundamentos das empresas. Mas esse cenário tem efeitos reais sobre os fundamentos? Se sim, a bolsa Brasileira está refletindo corretamente as informações? Colocando no jargão do mercado: está cara ou barata? É hora de comprar ou vender? Qual estratégia o investidor pode adotar? São essas perguntas que tentaremos responder nos próximos parágrafos.

  Apesar da recente valorização que tem apresentado, batendo recordes atrás de recordes em números absolutos, não é verdade que o índice é o mais alto dos últimos anos. Quando se traça um gráfico do Ibovespa contra o dólar, percebe-se que o índice está muito aquém da máxima apresentada no dia 19 de maio de 2008 (44.616,04), com o patamar mais alto desde então alcançado no dia 03 de outubro (24.367,13). Ou seja, o índice teria que se valorizar mais de 80%, levando-se em consideração o atual patamar da taxa de câmbio, para poder voltar ao nível observado em 2008.

   Se o valor de uma empresa hoje representa a sua potencial capacidade de geração de caixa futuro, outra métrica interessante seria traçar o Ibovespa contra o lucro líquido reportados pelas empresas. É isso que fazemos abaixo.

 

    O gráfico acima representa a cotação do Ibovespa em cada trimestre divido pela soma dos lucros líquidos das empresas que compõe o índice. É fácil visualizar que quando se usa este parâmetro, o índice está quase na metade do valor apresentado no quarto trimestre de 2013. O que reforça o entendimento de que o Ibovespa está longe de alcançar patamares elevados.

    E já que estamos falando sobre o Ibovespa, quais são as maiores empresas que compõem o índice? Diferentemente da New York Stock Exchange (NYSE) – principal bolsa americana ao lado da Nasdaq – o Ibovespa apresenta uma alta concentração de ativos. Com as empresas que compõem o índice somando um valor de mais de 2,5 trilhões de reais, apenas 6 empresas correspondem a quase metade desse valor.

 

    Com um valor de mercado de mais de 330 bilhões de reais, a companhia do bilionário brasileiro Jorge Paulo Lemann, a Ambev, se destaca como a empresa com maior valor de mercado na bolsa brasileira, seguida de perto pelo Itaú Unibanco, com 274 bilhões de reais. O que chama atenção é que, das 7 maiores empresas, 4 são instituições bancárias e 2 são estatais. 

  Já quando olhamos a composição da NYSE, percebemos uma bolsa muito mais pulverizada que a brasileira. Com a soma das 361 empresas com maior participação no índice, obtêm-se o montante de mais de 15 trilhões de dólares, valor próximo ao PIB americano, que fechou 2016 em pouco mais de 18 trilhões de dólares.

   Liderando o ranking das empresas mais valiosas da NYSE, está a Berkshire Hathaway – empresa do mega investidor americano Warren Buffet – com um valor de mercado de mais de 460 bilhões de dólares, seguida de perto pela Johnson&Johnson, com valor de mercado próximo a 360 bilhões de dólares. Diferente do caso brasileiro, a bolsa americana apresenta uma composição setorial muito mais variada entre as grandes empresas, que vão desde petroleiras até grandes varejistas.

  Voltando novamente à análise da bolsa brasileira, não é possível afirmar o melhor momento de entrar no mercado, pois alguns investidores podem achar que o índice está demasiadamente valorizado[Office1] , com uma valorização de mais de 40% desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em maio de 2016;  enquanto outros acreditam que os fundamentos atuais justificam mais valorização. É importante notar também a sensibilidade dos ativos internos a movimentos externos, com um cenário global extremamente favorável à economia brasileira no momento, mas que pode mudar de uma hora para outra[Office2] [C3] . É importante observar o recente movimento dos principais bancos centrais do mundo em direção a reduzir seus balanços, com o banco central americano – FED – dando indícios que mudará a trajetória de sua política monetária, com uma elevação na taxa básica de juros da economia americana, o que leva a uma fuga de capitais externos de economias emergentes.

   Por isso é sempre importante que o investidor invista em empresas sólidas, com alto nível de governança corporativa, e cujos fundamentos ele conheça bem. Aliado a escolhas de empresas sólidas, está também uma boa estratégia de gerenciamento de risco, em que o investidor define quais são seu objetivos, qual o percentual de seu capital será destinado a cada modalidade de investimento e como esse lidará com a alta volatilidade que o mercado apresenta. Dessa forma, estará minimizando a chance de perdas futuras e maximizando as chances de retornos consistentes ao longo do tempo.

 

Observação: A análise feita acima considera dados até o dia 05 de outubro de 2017.

 

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November 12, 2019

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