Produzido originalmente para o jornal Tribuna de Minas

 

     A última Pesquisa Nacional de Amostra no Domicílio Contínua, a Pnad Contínua, referente a dezembro de 2017, mostrou que, pela primeira vez no ano, a taxa de desocupação ficou abaixo dos 12%. O número, entretanto, contrasta com a diminuição dos postos de trabalho observada no período e é explicado, principalmente, pela forma como é calculada a taxa. A taxa de desocupação é medida pela razão entre as pessoas desocupadas, aquelas que estão procurando emprego mas não encontram, e o total de pessoas na força de trabalho, os desocupados mais aqueles que exercem ou exerceram alguma atividade remunerada no período da pesquisa. Desta forma, à medida que aqueles que estavam procurando emprego desistem da busca, tornando-se desalentados, a taxa final também cai. Veremos, então, se o fenômeno do desalento pode explicar o resultado do Brasil.

     Segundo dados do IBGE para o último trimestre de 2017, cerca de 3,9% da força de trabalho estava em desalento no período, o que corresponde a aproximadamente 4,3 milhões de pessoas, configurando-se como maior número já registrado pela pesquisa. Realizando uma análise em nível de regiões, é nítida a disparidade: apenas o Nordeste detém 59,7% do total de desalentados, com peso maior dos estados da Bahia e do Maranhão. A justificativa econômica para o “desânimo” na busca por emprego remete à baixa atividade produtiva (variação positiva de 1% quando comparado a 2016) e ao saldo negativo da ordem de 20.832 em relação à criação de postos de trabalho formal (ou seja, ocorreram mais demissões do que contratações no acumulado do ano).

     Movimento similar ao que vivenciamos atualmente é relativamente comum nas economias. Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos referentes à crise do subprime em 2008 estimam que cerca de 4 milhões de trabalhadores, no período de dezembro de 2007 e dezembro de 2010, teriam deixado de procurar emprego por desalento e/ou inatividade. Este montante teria sido capaz de segurar a taxa de desemprego em 9,7% (como o registrado em 2010) enquanto previsões indicavam que a mesma poderia chegar a 11%. Assim sendo, é notável que o volume de pessoas consideradas “desalentadas” pode, em certa medida, mascarar o real montante de indivíduos desempregados, criando a falsa noção de ‘emprego’.

     Nesse sentido, é válido destacar que, mesmo havendo uma redução da taxa de desocupação no último trimestre de 2017 (11,8%) em comparação com o trimestre anterior (12,4%), o número de “desalentados”, ou pessoas que deixaram de procurar emprego, acabou sendo o maior já registrado na pesquisa efetuada pelo IBGE. Quando se analisam os dados relacionados aos indivíduos no setor privado com carteira assinada, percebe-se que houve uma redução da ordem de 1,4% em relação ao 4º trimestre de 2016. Diante do exposto, fica explícito que existem mais fatores a se levar em consideração além da taxa de desocupação pura e simples. Em suma, caso parte da população antes classificada como desempregada não estivesse desanimada na procura por emprego, a taxa de desocupação provavelmente não sofreria a queda que observamos nos últimos dados de 2017, podendo, no limite, até manter-se inalterada.

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