Tecnologia, jabuticaba e emprego

Passados quatro meses desde a implantação das medidas de distanciamento social, não é novidade afirmar que a pandemia afetou a atividade econômica no Brasil. Entretanto, acompanhar de perto como a recessão está impactando o emprego e compreender a velocidade com  a qual os brasileiros estão retornando ao trabalho traz uma discussão relevante sobre a força de trabalho brasileira assim como expõe problemas da relação emprego-renda  no maior país latino-americano.

 

Seguindo este ponto de vista, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,3 milhão de empresas na primeira quinzena de junho estavam com as atividades encerradas definitiva ou provisoriamente, sendo o setor terciário o grande afetado pela crise: quase 40% das empresas do comércio tiveram que fechar as portas em algum momento durante a pandemia. Consequentemente, a contração da atividade econômica provocou o aumento da desocupação no sexto mês de 2020: a taxa de desocupação chegou a 13,1% no fim de junho, maior patamar desde o começo da PNAD COVID-19, nos primeiros dias de maio. Conceitualmente, é importante afirmar que a taxa de desocupação corresponde ao total de pessoas desocupadas em relação às pessoas da força de trabalho do Brasil.

 

Por outro lado, quanto aos trabalhadores ocupados, houve uma queda na quantidade de pessoas ocupadas que estavam afastadas do trabalho presencial: na quarta semana de junho essa quantidade era de 11,1 milhões ante os 16,6 milhões no início de maio. Em partes, essa redução pode ser atribuída a um grupo de colaboradores que estava retornando ao trabalho, mas que foi desligado do emprego durante o último mês, contribuindo para o aumento da desocupação, já que a parcela de trabalhadores fora da força trabalho se manteve estável e a informalidade não apresentou grandes variações.

 

Como exposto anteriormente, a informalidade, que costuma aumentar em período de crise, está atingindo 28,5 milhões de brasileiros, apresentando certa estabilidade desde o início do segundo trimestre de 2020. É importante afirmar que, entre os informais, estão empregados do setor privado sem carteira, trabalhadores domésticos sem carteira e empregadores que não contribuem para o INSS. Portanto, da força de trabalho brasileira, 34,5% estão ocupados, mas de maneira informal.  

 

Por fim, percebe-se que a recuperação da economia brasileira, no que diz respeito ao mercado de trabalho, se apoia na informalidade. A tecnologia de aplicativos de transporte , por exemplo, exerce um papel fundamental para a ocupação informal, já que garante determinado nível de renda no curtíssimo prazo. A transição da informalidade para a ocupação formal faz parte do gradualismo da recuperação  econômica brasileira. Dessa forma, discutir sobre emprego no país envolve mais do que analisar taxas, engloba reconhecer que o progresso tecnológico muda os incentivos aos agentes econômicos e compreender que o mercado de trabalho brasileiro possui características particulares, sendo mais um exemplo da metáfora das jabuticabas, encontradas apenas em solo nacional.

 

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