Impactos da Pandemia: quem perde mais?

 

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) demonstrou que a inflação registrada no mês de junho afetou de maneira desigual as famílias brasileiras. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou um avanço de 0,26% para a população em geral durante o mês de junho – no entanto, esse aumento de preços teve um impacto equivalente a 0,32% para as famílias de renda muito baixa, enquanto as famílias de renda alta sentiram uma variação de 0,21%.

 

Esse fenômeno pode ser explicado pelos diferentes perfis de consumo de cada faixa de renda e pelas diferentes variações de preços encontradas entre os grupos que compõem o IPCA. Famílias de renda mais baixa destinam a maior parte de seus ganhos para o consumo de alimentos (25,8%) e despesas com habitação (20,3%), enquanto famílias de renda mais elevada têm seu consumo mais atrelado aos gastos com transporte (24%) e despesas pessoais (18,8%).

 

Dados do IPEA demonstram que o aumento no preço dos alimentos, por exemplo, durante o mês de junho, influenciou em 24% da inflação dos mais afortunados e em 34% das pessoas com menor poder aquisitivo. Para o acumulado do ano, a inflação de um modo geral apresentou um avanço de 0,10%, sendo que as classes mais altas experienciaram uma redução de 0,24% no nível dos preços, levando em conta seu consumo médio, enquanto os segmentos de renda mais baixa sentiram uma elevação de 0,77%.

 

Em contrapartida, pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) COVID-19, que a porcentagem do rendimento efetivo perante o rendimento habitual dos trabalhadores aumentou em junho se comparado a maio. Em maio, os ganhos efetivos dos trabalhadores alcançaram uma média de R$ 1.896,00, ficando 18,5% abaixo dos R$ 2.326,00 habitualmente encontrados. Já em junho, o rendimento efetivo foi de R$ 1944,00, 16,6% menor que o rendimento habitual de R$ 2332,00. Todas as regiões ficaram com o rendimento inferior ao habitual, sendo que o Nordeste apresentou a maior queda, ficando com o rendimento 18,4% abaixo da média histórica, enquanto o Centro-Oeste foi a região com menor redução: 13,1%. A diminuição do rendimento habitual em relação ao efetivo ocorreu pela queda na média semanal de horas efetivamente trabalhadas, de 39,8 para 29,5 horas.

 

O programa de transferência direta de renda também atingiu maior parte da população em junho, chegando a 46,6% dos domicílios, enquanto que em maio apenas 42,7% das famílias eram contempladas por algum tipo de auxílio ou seguro. Essa porcentagem totaliza 31,8 milhões de domicílios que possuem pelo menos um morador beneficiado pelo Auxílio Emergencial, Seguro-Desemprego, Benefício de Prestação Continuada ou Programa Bolsa Família.

 

Portanto, por mais que a renda tenha aumentado em junho, as famílias menos afortunadas acabaram sofrendo uma inflação maior do que a população mais rica, levando a um aumento nas disparidades de renda. Tal fator é somado ao fim do auxílio emergencial no mês de agosto por conta do impacto que o programa tem nas contas públicas, o que acaba agravando o quadro de queda na renda da camada mais vulnerável da população. Esse contexto acaba gerando um verdadeiro impasse envolvendo perspectivas fiscais e sociais que só poderá ser solucionado de fato com a retomada econômica a partir do controle da pandemia.
 

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