Juros em queda? Nem tanto! Mas a hora é de renegociar!

 

Produzido originalmente para o jornal Tribuna de Minas.

 

O Comitê de Política Monetária (Copom) aprovou em sua última reunião o quinto corte consecutivo no ano para a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira. Desta vez, houve uma redução de somente 0,25 ponto percentual, gerando um novo menor patamar histórico de apenas 2% ao ano. As justificativas para tamanho estímulo monetário estão altamente relacionadas com a profundidade da atual retração econômica em nível mundial e seus efeitos internos, tais como a trajetória da inflação abaixo da meta estipulada pelo Banco Central (BC) e as incertezas sobre a velocidade com a qual a economia brasileira será capaz de se recuperar.

 

Esse cenário acaba sendo uma novidade para o país, ainda acostumado às altas taxas de juros praticadas no mercado de crédito. Muitos brasileiros acabam por ter dificuldade em visualizar o custo de aquisição de tais quantias, que podem atingir mais de 50% do valor concedido pelo banco após o final do pagamento. A análise de custo, quando feita incorretamente, pode gerar ou agravar a inadimplência, que chegou a atingir a marca de 10,3 milhões de brasileiros em 2019, o que corresponde a 12,1% dos tomadores de crédito do Sistema Financeiro Nacional, segundo o BC.

 

Os dados ainda mostram que mesmo antes da atual crise já havia um elevado número de tomadores de crédito que se encontravam com um alto comprometimento financeiro, com 9,8 milhões de pessoas destinando mais de 50% dos seus rendimentos para o pagamento de suas dívidas. Com os impactos causados pela Covid-19 na economia e a consequente diminuição do rendimento médio da população, é esperado que tanto a porcentagem do comprometimento financeiro quanto o número de inadimplentes seja ainda maior.

 

Apesar do recente ciclo de cortes da Selic, é possível verificar que os bancos não estão reduzindo suas taxas de juros na mesma proporção devido às suas análises de risco para a inadimplência esperada. Mesmo quando a Selic já se encontrava a 2,25% ao ano, segundo dados do BC referentes a julho de 2020, a taxa média para aquisição de veículos atingiu 21,53% a.a.; a do cheque especial atingiu 103,96% a.a. e a do crédito pessoal não consignado a 187,04% a.a.

 

Durante o fim do último ciclo de altas da taxa Selic, que chegou a 14,25% a.a. em 2016, os valores dos juros médios cobrados pelos bancos eram superiores aos atuais, atingindo 30,07%, 202,71% e 187,25% a.a., respectivamente. Como se vê, enquanto a Selic é cerca de 1/7 da anterior, os demais juros estão longe de terem caído na mesma proporção.

 

A redução dos juros praticados pelos bancos foi muito menos expressiva se comparada ao grande ciclo de cortes da taxa Selic. No entanto, as taxas de juros mais baixas são uma boa oportunidade para a renegociação de dívidas, o que é capaz de auxiliar as famílias a terem uma maior porcentagem de renda disponível neste momento de escassez. Tal rearranjo também é capaz de reduzir o possível aumento da taxa de inadimplência de 2020 em relação ao ano anterior, por conta da redução da renda média mensal do trabalhador brasileiro nos conturbados tempos de pandemia. É uma atitude ganha-ganha renegociar.

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