Brasil: passado, fracasso e… futuro?

 

No fim do mês de julho, as estatísticas sobre a economia do segundo trimestre foram divulgadas e trouxeram certo otimismo aos brasileiros por confirmar uma queda não tão profunda da atividade econômica no período, como era aguardado. As projeções para o PIB continuam em revisão, com novas reduções na expectativa de queda. Entretanto, cabe destacar que a recuperação é bastante heterogênea entre os setores, implicando uma discussão importante sobre os componentes do PIB, a saber, consumo e investimento, além de provocar uma reflexão sobre a importância do setor terciário, especialmente dos serviços, na retomada brasileira.

 

Iniciando a análise a partir do principal componente do PIB nacional, o consumo privado, há indícios de que existe um fenômeno ocorrendo nos últimos meses: em maio, por exemplo, simultaneamente a um aumento do comércio varejista de quase 20%, houve uma queda da atividade de serviços, o que indica para alguns analistas que a recuperação está sendo baseada nas despesas com bens em detrimento às despesas com serviços. Se a economia está se normalizando, mas não através de uma aceleração homogênea do setor terciário, isso pode retardar a velocidade com a qual o Brasil se recupera da recessão, já que cerca de 70% do valor adicionado da economia é proveniente dos serviços. Além disso, é importante afirmar que a classificação da aceleração, ou seja, se é heterogênea ou não, é dificultada pela diferença de liberação de funcionamento entre comércio e serviços, visto que muitas atividades dessa última categoria ainda estão plenamente paralisadas em alguns lugares, o que não permite insumos para uma análise eficaz. Por fim, está bem claro que a recuperação gradual do consumo é atribuída a um aquecimento do mercado de trabalho e aos mecanismos de transferência de renda, que juntos totalizaram quase R$ 350 bilhões

 

Em contrapartida, o investimento, ou seja, os dispêndios com bens de capital por parte das empresas, não dá sinais muito otimistas: a expectativa da Fundação Getúlio Vargas é de queda de 14,3% desse componente em 2020, atingindo o nível observado no segundo semestre de 2010. Nesta pandemia, um dos grande retardatários do investimento no Brasil é a construção civil, que caiu 30% no bimestre finalizado em maio, o pior até então. Logo, o atraso na recuperação dessa atividade implica uma lentidão na formação bruta de capital fixo do país, já que ela é responsável por uma participação de 50% nos investimentos. 

 

Por fim, é importante lembrar que o Brasil enfrenta uma pandemia sem ter se recuperado totalmente da recessão em 2015, sendo que naquele período foram duas quedas consecutivas do PIB: 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. Como até então, na atual crise, a recuperação está heterogênea e o setor terciário é o grande afetado, isso acarreta mais problemas para o país, já havendo projeções de que o nível de produção nacional só alcançará o patamar pré-pandemia no segundo semestre de 2022, passados, portanto, mais 2 anos a partir de agora. A projeção da CMC é de que o país precisaria aumentar o PIB em volume entre 5,5% e 6% em relação ao primeiro trimestre de 2020 somente para retomar o patamar do quarto trimestre de 2014. Enquanto o mal da inflação adicionou o adjetivo “perdida” à decada de 1980, já existem profissionais bastante críticos em relação aos últimos anos do maior país latino, insinuando que a economia brasileira “se perde” no presente tão quanto no passado. Ainda bem que somos o país do futuro.

 

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