As peculiaridades da inflação durante a crise


O Índice de Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA-15) apresentou mais um mês de alta, variando 0,23% em agosto após o avanço de 0,30% registrado em julho. É possível notar, portanto, um aumento considerável deste índice em relação ao resultado obtido em agosto de 2019, quando o IPCA-15 foi de apenas 0,08%. Esses valores são o reflexo de uma leve recuperação das atividades relacionadas à indústria e comércio, o que contribuiu para que as expectativas de inflação para o agregado de 2020 fossem elevadas de 1,67% para 1,71%. Apesar deste aumento, o resultado esperado para o IPCA permanece abaixo do piso da meta estipulada pelo Banco Central (BC), de 2,5%.


Tal aumento também pode ser explicado pelas medidas de estímulo monetário e auxílio financeiro do governo, que compensaram parcialmente a queda da renda proveniente do trabalho neste ano. Diferentemente do consumo e da atividade industrial, o setor de serviços deve levar mais tempo para retornar aos patamares pré-crise, tendo em vista que algumas atividades ainda são impactadas pelas restrições no convívio social, como é o caso da alimentação fora de casa, recreação e hospedagem.


Diversos setores apresentaram elevação em seus preços, como no caso dos transportes (0,75%), onde foi registrada inflação em decorrência do aumento no preço dos combustíveis. Nesta categoria destacam-se o aumento no preço da gasolina (2,63%), do valor do óleo diesel (3,58%), do gás veicular (0,47%) e tarifas do metrô (0,94%), enquanto as “âncoras” para a subida de preços deste setor vieram da queda nos valores cobrados pelos transportes por aplicativo (6,75%), passagens aéreas (1,88%) e seguro de veículos (1,92%). Esses valores ajudam a explicar o maior impacto da inflação para as famílias com renda mais baixa, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).


Houve também um aumento de preços no grupo habitação (0,57%), influenciado pelos itens energia elétrica (1,61%) e materiais de construção, tais como cimento (5,26%), tijolo (4,83%) e areia (1,53%). Já a área da educação apresentou a maior queda de preços no período (3,27%), motivada pela suspensão das aulas presenciais. Em função disso, várias instituições de ensino concederam descontos nas mensalidades, desde a pré-escola até a pós-graduação, resultando na deflação desse setor.


Vale ressaltar que, desde o início da crise, a diferença entre a inflação ao produtor e a inflação ao consumidor triplicou, levando à maior disparidade entre esses indicadores desde o ano de 2008, segundo o último boletim IBRE/FGV. Em fevereiro de 2020 o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) acumulava uma alta de 7,7% em 12 meses, enquanto o indicador referente aos consumidores (IPCA) acumulava 4%. Atualmente, o indicador referente aos produtores registra uma alta de 14,3%, motivada sobretudo pela desvalorização cambial, enquanto o IPCA foi reduzido para 2,3%. Tais dados mostram que a retração do consumo fez com que os produtores absorvessem temporariamente parte destes ajustes, evidenciando uma pressão de subida de preços para o pós-pandemia.


É possível perceber, portanto, que a recuperação heterogênea dos diferentes setores impacta de maneira diversa o comportamento dos preços. A inflação ao consumidor continuará abaixo do esperado enquanto persistirem os efeitos da crise, bem como o elevado nível de incerteza que vem freando o consumo e a realização de novos investimentos por parte do setor privado. Enquanto isso, os agentes públicos têm a difícil missão de conciliar estímulos monetários com responsabilidade fiscal, a fim de promover a recuperação da economia sem perderem o controle inflacionário para os próximos períodos.

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