No dicionário de 2020, exportação é sinônimo de alento?

 

Para aqueles que acompanham de perto a economia, já é claro que a balança comercial brasileira apresentou resultados consideráveis no primeiro semestre, em meio a uma recessão técnica oficializada na última semana. Apesar de ser  inegável a forte contribuição da taxa de câmbio para os resultados em análise e de ainda ser cedo para definir qualquer padrão,  focalizamos nosso estudo na possível relação entre a fase da pandemia em cada país e o grau de parceria econômica com o Brasil no período de 2019 a 2020.

 

Primeiramente, é importante entender que as exportações brasileiras dependem da demanda externa, portanto, os países que já superaram o pico da pandemia ou que conseguiram controlar a disseminação do vírus tendem a ser importantes parceiros comerciais do Brasil durante 2020. A partir dos dados do Comex Stat, se analisarmos o valor das exportações em dólar no período de julho de 2019 a julho de 2020, percebe-se que Oceania, Ásia (excluindo o Oriente Médio e o Sudeste Asiático) e África aumentaram suas importações de produtos brasileiros mesmo em um cenário pandêmico. No caso asiático, houve uma elevação igual a 15,37%, liderada pela China, que comprou 25,53% a mais de produtos brasileiros, em termos nominais, enquanto que alguns países insulares da Oceania, que inclusive não apresentaram nenhum caso de coronavírus até o fim de agosto, e a Nova Zelândia, protagonista no controle da pandemia, elevaram seu consumo, contribuindo para que o Brasil exportasse 2% a mais para o continente.

 

Entretanto, dentro deste mesmo cenário, existem exceções, isto é, países que passam por grandes dificuldades fiscais, porém estão entre as nações que mais consumiram produtos de origem brasileira. Um exemplo é o Quirguistão, considerado o novo epicentro do vírus na Ásia Central, mas que elevou suas importações em 4483,58%. A depender da realidade de cada nação, esses gastos governamentais podem acarretar problemas fiscais ao país, tanto que o próprio Quirguistão foi o primeiro país a ter um auxílio emergencial aprovado pelo FMI durante a pandemia.

 

Do outro lado da história, tradicionais parceiros comerciais diminuíram suas importações desde a metade do ano passado. Os Estados Unidos, o segundo destino mais recorrente da nossa produção desde 1997, recuaram em 37,62% as importações, medidas em dólares. Os argentinos bem como os holandeses também retraíram o comércio com o Brasil, com queda das importações iguais a 24,77% e 10,47% respectivamente. Dos dez principais demandantes de bens brasileiros desde a segunda metade dos anos 90, apenas três elevaram suas compram entre o junho de 2019 e julho 2020, a saber, China, Espanha e Itália, todos em etapas avançadas de controle da pandemia.   

 

Concluindo, é cedo para dizer que existe cientificamente uma correlação entre estágio de controle da pandemia e demanda por produtos brasileiros, já que outras variáveis como renda nacional e taxa de câmbio também influenciam as trocas internacionais. Entre fevereiro e julho, houve uma desvalorização cambial de 20%, o que influenciou fortemente a demanda por nossos produtos. No entanto, pode-se afirmar que o fato da China ter superado a crise primeiro contribuiu significativamente para que as exportações brasileiras não caíssem tanto em volume, “salvando” a balança comercial do Brasil, com espanhóis e italianos também contribuindo. Portanto, como em muitas situações da Economia, apenas no futuro, quando olharmos para trás, conseguiremos ver com clareza como foi a dinâmica comercial, apesar de já estar nítida a importância da balança comercial para a economia em 2020.

 

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