O Banco Central e a arte de antecipar o futuro no meio da incerteza


A economia brasileira se encontra no estágio final de um longo ciclo de cortes em sua taxa básica de juros (Selic), a qual atingiu sua nova mínima histórica de 2% ao ano (a.a.) durante o último encontro do Copom, nos dias 4 e 5 de agosto. Para a tomada de decisão, foram considerados o ainda elevado nível de ociosidade na atividade econômica e o ambiente de incerteza causado pela pandemia, que pode promover uma recuperação mais lenta que o esperado, justificando o aumento do estímulo monetário.


Por outro lado, a possibilidade de agravamento da situação fiscal no longo prazo pela não aprovação das reformas econômicas propostas e a existência de diversos estímulos de crédito lançados pelo governo para incentivar a recuperação da economia, via retomada da renda, podem causar uma pressão para a subida de preços maior que o esperado, reduzindo o espaço para cortes adicionais na Selic.


No entanto, o elevado grau de estímulo monetário ainda não foi suficiente para fazer a trajetória da inflação convergir para o piso da meta proposta de 2,5% neste ano, apesar de uma recente melhora nas projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Segundo o último Relatório Focus, divulgado em agosto, o IPCA encerrará o ano de 2020 em 1,77%, frente aos 1,63% previstos há quatro semanas. Tal cenário somado à falta de espaço remanescente para a redução da taxa de juros fez o Banco Central (BC) considerar a adoção de um novo instrumento para a política monetária: o Forward Guidance.


Esse instrumento também conhecido como “prescrição futura” surgiu no Japão após o estouro da bolha de ativos nos anos 1990 e foi replicado em diversos países sobretudo após a crise internacional de 2008. O lento processo de recuperação dos mercados após o episódio citado gerou um caráter recessivo na economia, levando a um quadro de queda generalizada de preços e elevação do desemprego, obrigando o país a aumentar cada vez mais o grau de estímulo monetário na economia. Quando a taxa de juros chegou a zero, o Banco do Japão assumiu o compromisso de mantê-la nesse patamar até que o comportamento dos preços voltasse ao normal e a economia reagisse. O resultado foi a ampliação do efeito das políticas anteriormente adotadas.


A ferramenta, portanto, consiste em uma estratégia de comunicação por parte do formulador da política monetária com o mercado, onde o primeiro precisa fazer uma promessa crível de manutenção das taxas de juros em patamares reduzidos por um prazo pré-estabelecido ou até que determinadas condições econômicas sejam atendidas, visando reduzir o grau de incerteza no mercado e estimular a realização de novos investimentos para a retomada da economia.


Há um claro comprometimento por parte do Banco Central brasileiro de manter a taxa de juros em 2% a.a. enquanto a inflação não convergir para a meta estipulada. A instituição também sinalizou que a Selic ainda poderá ser reduzida dependendo do ambiente econômico. Deste modo, caso o BC mantenha sua promessa por meio de uma política crível e transparente, a nova aplicação do Forward Guidance será um cenário extremamente raro no Brasil: país acostumado a conviver com altas taxas de juros devido ao seu passado inflacionário.


#Macroeconomia

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